CTCs e biópsia líquida: tecnologia chave na oncologia de precisão
A biópsia líquida consolidou-se como uma ferramenta central na oncologia translacional. Embora a análise de cfDNA tenha alcançado uma rápida integração clínica, as Células Tumorais Circulantes (CTCs) representam um analito biologicamente mais complexo: células intactas, viáveis, com potencial para caracterização genómica, transcriptómica, proteómica e funcional em tempo real.
O principal desafio tem sido metodológico. A baixa frequência de CTCs no sangue periférico (1–10 células por mL) exige tecnologias capazes de as isolar com elevada eficiência, preservando a sua integridade estrutural e molecular.
O sistema Parsortix® foi desenvolvido com base neste princípio: uma tecnologia microfluídica independente de epítopos que permite a captura baseada em propriedades físicas, recuperação celular viável e posterior análise downstream com múltiplas aplicações.
Em paralelo, o campo das CTCs está a atravessar uma evolução conceptual rumo a modelos de integração clínica mais definidos.
Consenso internacional 2025: consolidação clínica e redefinição funcional
Em 2025, um painel internacional de especialistas publicou no European Journal of Cancer um consenso estruturado sobre a integração clínica das CTCs em tumores sólidos.
As conclusões estabelecem que:
• Existe evidência suficiente para o uso clínico das CTCs na doença metastática, particularmente no cancro da mama e da próstata.
• A enumeração constitui um biomarcador prognóstico validado neste contexto.
• A próxima fase do desenvolvimento clínico deverá centrar-se na caracterização fenotípica e molecular.
• A integração com ctDNA representa um eixo estratégico para o avanço do campo.
• As tecnologias independentes de antigénios ganham relevância neste processo de transição.
Este consenso consolida a validade clínica das CTCs na doença avançada e estabelece um enquadramento conceptual orientado para a caracterização molecular e funcional como próxima fase evolutiva.
Captura microfluídica baseada em tamanho e deformabilidade
A arquitetura tecnológica do Parsortix alinha-se com esta abordagem ao priorizar a recuperação de células intactas e analiticamente exploráveis.
O Parsortix baseia o seu princípio de separação no tamanho e na deformabilidade celular. O cassete microfluídico incorpora uma redução progressiva do canal até atingir um “critical gap”, onde as células hematológicas atravessam o sistema, enquanto as células tumorais, geralmente maiores e menos deformáveis, ficam retidas.
Esta abordagem é particularmente relevante no contexto da heterogeneidade tumoral.
Heterogeneidade tumoral e transição epitélio-mesênquima (EMT)
As CTCs não constituem uma população uniforme. Durante processos como a transição epitélio-mesênquima (EMT), podem perder marcadores epiteliais clássicos e adquirir fenótipos mesenquimais ou híbridos.
A captura independente de epítopos permite recuperar:
• CTCs epiteliais
• CTCs mesenquimais
• estados intermédios de EMT
• clusters tumorais
Preservando assim a diversidade fenotípica e potencialmente funcional da população circulante.
De biomarcador prognóstico a ferramenta de estratificação terapêutica
O consenso internacional evidencia uma transição conceptual:
• Na prática atual, a enumeração de CTCs tem utilidade prognóstica validada na doença metastática.
• No futuro, a caracterização molecular e proteica será determinante para prever a resposta terapêutica e orientar a seleção de tratamentos.
• A avaliação da expressão de biomarcadores como HER2, TROP2, PD-L1, PSMA ou c-MET nas CTCs é identificada como uma linha prioritária para o avanço da medicina personalizada.
Do ponto de vista biológico, as CTCs apresentam vantagens claras face ao ctDNA:
• material tumoral celular
• possibilidade de análise single-cell
• avaliação simultânea de ADN, ARN e proteínas
• caracterização clonal e subclonal
• potencial para estudos funcionais
Ao permitir a recuperação de células viáveis, o Parsortix facilita a transição da deteção quantitativa para a caracterização multi-ómica integrada.
Complementaridade biológica com ctDNA
O consenso sublinha que as CTCs e o ctDNA representam analitos biologicamente complementares.
O ctDNA reflete fragmentos de ADN libertados para a corrente sanguínea, predominantemente derivados de apoptose ou necrose tumoral.
Por outro lado, as CTCs são células intactas, com arquitetura preservada e contexto biológico completo.
A integração de ambos os analitos pode:
• aumentar a sensibilidade na doença mínima residual (MRD)
• refinar modelos prognósticos
• ampliar a proporção de doentes avaliáveis
• fornecer informação biológica não redundante
A arquitetura do Parsortix permite implementar este modelo multimodal através de:
• separação de plasma para análise de cfDNA
• captura celular subsequente no mesmo fluxo de processamento
• análise molecular e proteica downstream
Configura-se assim um modelo integrado de biópsia líquida baseado na complementaridade biológica entre analitos celulares e acelulares.
Doença precoce e monitorização de MRD
Na doença não metastática, o consenso reconhece que a utilidade clínica ainda não está estabelecida, embora exista evidência sólida de validade biológica, particularmente no cancro da mama precoce.
As principais limitações incluem:
• baixa frequência de CTCs
• variabilidade pré-analítica e analítica
• necessidade de maior sensibilidade e reprodutibilidade
O desenvolvimento de estudos prospetivos multicêntricos, juntamente com a harmonização metodológica, será determinante para traduzir esta validade biológica em utilidade clínica comprovada.
Alinhamento com prioridades estratégicas do campo
O consenso define como prioridades:
• padronização de protocolos pré-analíticos e analíticos
• integração estruturada com ctDNA
• caracterização de biomarcadores terapêuticos prioritários
• geração de evidência clínica robusta
• desenvolvimento de ensaios prospetivos orientados por biomarcadores
Neste contexto, a captura celular constitui apenas a fase inicial do processo analítico. O objetivo final é a obtenção de informação biológica com relevância funcional e potencial translacional.
Neste cenário, o Parsortix não representa apenas uma tecnologia de enriquecimento celular, mas uma plataforma analítica que integra captura, viabilidade e caracterização multi-ómica num único fluxo experimental, ampliando o alcance biológico da biópsia líquida.
